27 de fev. de 2009

SOBRETUDO AZUL


Azul de Metileno Galeria Attritio Flickr

ah... este céu
de azul de metileno
sobre nossas cabeças
de coloridos vários
sobre nosso pescoço
da cor do nosso medo

áspero manto sobre todos
e sob nossos pés a relva
que encobre o chão
o céu que encobre tudo
o céu, sobretudo azul
sobre nós - descoloridos sóis

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25 de fev. de 2009

NÃO SIM

cheiros de primavera
aconchegos de inverno
sabores de outono
temporais de verão

— amores de estação

quem quer amor assim?
— eu não
— eu sim

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23 de fev. de 2009

PÁSSARO E FLOR

O homem constrói sua casa
E passa o resto da vida
Admirando sua obra
Não é a casa que admira
É sua própria imagem
Refletida nos vidros das janelas
No espelho d’água dos lagos
No mensageiro do vento das varandas
João de Barro e Narciso
— Pássaro e Flor
O homem. A casa. O espelho.

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21 de fev. de 2009

CASA CAIADA


Ljubica Rapaic - textura de uma parede vizinha vista da cozinha

tijolo de barro cozido
reboco
cimento queimado
piso
forro de madeira
velhas telhas: a casa
na janela: flores
no fogão: bule de café
chá de maçã com canela
no pomar velhas árvores:
muitos frutos
roupas secando no varal:
quintal
no balaio bambu taboa vime:
muita fibra
algodão juta seda
linhas e fios: bordados
uma roca que não para de fiar
teares que não cessam de tecer
urdiduras tramas texturas:
tecido
nesta casa mora o verso
casa caiada: tecida poesia

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19 de fev. de 2009

O SOL

ando pelas ruas de pedra
molhadas do exagero das chuvas
há limo nas calçadas e nos meus olhos
fartos do cinza, buscam o sol
— o sol
o sol
ainda uma vez mais
há de queimar a minha pele branca

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18 de fev. de 2009

ARTIFÍCIOS

fogos
de artifícios
explodem longe
- eu na janela
mais uma vez
vejo tudo à distância

foi sempre assim
lá fora
a vida arrebenta
- aqui dentro
em constante implosão
desmorono

lágrimas em pó
fuligem
ferros retorcidos
- escombros
estilhaços de vidro
cinzas

eu
fênix de concreto
e aço
- renasço
sempre mais flexível
cada vez mais difícil
me quebrar

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17 de fev. de 2009

PRANA


flying, (C) TCA abstracto concreto II

trago em mim
a marca
dos que sufocam

abram janelas
- vento
brisa que seja
- ar

asas de bicho
que voa
pássaro abelha
borboleta que seja
- sopro

rosto vermelho
- abano
folha
onde escrevo
versos

- prana

flutuo em nirvana
pelo poema
asas de bicho vôo

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15 de fev. de 2009

GUARDA-CHUVA SOL

risco
a pela com gravetos
- apanhados na grama
molhada
das chuvas que não cessam

cheiro
de goiaba no pé
- apanho algumas
todas bichadas
mas o sabor é mel

chuva de folhas
- e outros bichos
cai sobre mim

viver
é caminhar na chuvas
- pele arranhada de gravetos
frutos doces no pé
todos bichados

além
do que as mãos os pés a boca
- e os olhos alcançam
sobre nossas cabeças
um sol vermelho espera

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13 de fev. de 2009

A FLUTUAR

Cansada.
De cansada não ando.
Do não andar, descanso.

- O descanso me impele
a caminhar.

Entre a inércia
e o ímpeto do movimento:
a vida.

Ela não cansa de passar.

Ela não anda, voa.
E me impele
também a voar.

- E eu vôo.
E se me canso de voar,
flutuo.

Então eu vivo
a flutuar.

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12 de fev. de 2009

ROSA BRANCA POÉTICA


Gustav Doré's illustrations
The Divine Comedy - Pardadiso Canto 31

Procuro a rosa
Uma rosa branca
- Rosa branca poética
Que habita o centro
Do terceiro céu
- Imaterial
Como posso sabê-la?
No entanto fixa
- Esfera transparente
Sei que num dia incerto
Poderei tocá-la.

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11 de fev. de 2009

FERA

senti o tempo
- lobo cinzento
surgindo na colina

não era noite
inda não era dia
- antiga hora morta
em que os mortos
ressurgem

em sombra
— que faz uivar
o lobo do tempo

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10 de fev. de 2009

IN_SONE



Di-
vago na noite
saio à janela e
grito:
silêncio!

na esperança
de que alguém
possa me ou-
vir
ou que meu grito
acorde
uma ave noturna
e eu possa ou-
vir
o som de suas asas

talvez
ainda que
agourento um pio

Quem sabe um cão
apareça
e eu possa olhar seus olhos
e ou-
vir
seus ui-
vos

Mas há
a minha frente
uma imensa montanha
que minha voz ecoa
e que meu grito
me devolve em salvas

Que aumenta
e perpe-
tua
o meu silêncio.

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DESAMORES_DESOLAÇÃO

Âmbar
— Almiscarados amores
Sangria
— Destilado coração

Vacilo
— Duvidosos amores
Calcário
— Petrificado coração

Estrondo
— Detonados amores
Fim dos amores
— Desolado coração

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PEDRAS QUE ROLAM

Seixos rolados
Madeixas
Deixas
Queixas
Deixa rolar

Pedras
Tramas
Esperas
Dramas
Haverão de rolar

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9 de fev. de 2009

CATEDRAL


Blue Virgin - Chartres Cathedral Stained Glass
Uma sobrevivente da original Catedral Romanesca


Onde encontrar
O número
O peso
A medida?
Em que perdida
Catedral
A luz dourada
Invade
O vidro branco
Único
Da colorida trama
Dos vitrais?
Onde se esconde
A fonte
Poderosa e fértil
Telúrica corrente
Emanada da terra?
Dólmen, poço, colina
Templários alquimistas
A transmutar metais
E aliviar do homem
A alma. Onde?
De tudo que queimou
E virou cinzas
Sobreviveu a Virgem
E seu menino.

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8 de fev. de 2009

LIMBO

As palavras estão gastas
puídas, rotas
e contra a decrepitude
das palavras
não há remédio
nem cura:

Haverão de morrer.

Irão para o limbo
onde as palavras mortas
esperam
que o ciclo se complete
e chegue a hora
de renascer:

Feito palavras novas.

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7 de fev. de 2009

DÊ CORDA


Pipa 2 - João Werner

Dê muita corda
Deixe seu sonho voar
Ele tem pressa
Ele não pode esperar
Morre de esperar demais

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6 de fev. de 2009

EXCESSOS

o vôo ágil
de um pequeno inseto
cortando a noite
feito um raio
girando em volta
da mesma lamparina
feito gente
girando na noite
sempre em volta
da mesma claridade
feito chuva
sobre a terra sedenta
águas que correm
arrastando flores

o vôo incerto
de um pequeno inseto
morrendo exausto
por excesso de asas
feito gente morrendo
por excesso de vida
feito chuva morrendo
por excesso de sol
feito flores morrendo
por excesso de chuva
águas que correm
arrastando sonhos
que também morrem
por seus excessos

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5 de fev. de 2009

ALMA DE ESTRELA

quando me ponho
a escrever poemas
a terra para de girar
e sai do eixo
a gravidade é zero
e eu flutuo
no espaço solitário
da minh’alma de estrela
que — só — retorna
depois de ter escrito
o último verso

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4 de fev. de 2009

LÂMINA

angústia
adaga branca
cravada
no meu peito
— engulo seco
na boca o gosto
é prateado e frio
— aço destemperado
já não há luz
o corte sangra
sem haver
quem estanque
— amanhecerá?


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MINHAS JANELAS - I


Fotografia:Janelas Azuis-Francisco Simões

"Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa
Com janelas de aurora e árvores no quintal -
Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores
E ao crepúsculo fiquem cinzentas
como a roupa dos pescadores.

O que desejo é apenas uma casa.
Em verdade, Não é necessário que seja azul,
nem que tenha cortinas de rendas.
Em verdade, nem é necessário que tenha cortinas.
Quero apenas uma casa em uma rua sem nome.

Sem nome, porém honrada, Senhor.
Só não dispenso a árvore,
Porque é a mais bela coisa que
nos destes e a menos amarga.
Quero de minha janela sentir
os ventos pelos caminhos, e ver o sol"

Manoel de Barros

3 de fev. de 2009

PASSARINHO

tenho tanto em comum
com os passarinhos...

amo as flores
a liberdade
o sol

tão frágil quanto eles
vivo em busca
e sobrevivo
de migalhas

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1 de fev. de 2009

SOBRE JANELAS E LIVROS


'Uma casa sem livros é como uma casa sem janelas'

Horace Mann - Educador/Abolicionista USA(1796-1856)


Detalhe da capa do 2LP
Physical Graffiti - Led Zeppelin


A Estante - Serigraph on Paper
Sônia Menna Barreto

30 de jan. de 2009

EDIFÍCIOS

Frágeis são meus versos
[Ruptura iminente]
Fissuras
Pois que erigidos
Sobre o solo instável
Dos meus sonhos
[Fugas, utopias, delírios]

Fortes são aqueles
[Inabaláveis]
Edificados
Sobre o solo firme
Da realidade
[Superestrutura]
Seja ela qual for

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29 de jan. de 2009

FINDO DIA



cantigas de roda
águas correntes
perfume de flores
do campo

boca pintada
com amoras silvestres
flor no cabelo
pés no chão

assim foi a vida um dia
e o dia terminou

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28 de jan. de 2009

LÁGRIMA DO CÉU

triste são os homens
que na poeira da estrada
lacrimejam terra
suam areias
destilam cansaço
— tentam
controlar seus caminhos
— ardem
faces e corações

um sentimento agudo
— ruge
feras aprisionadas
em armadilha injusta
holocausto diário
novilhos e carneiros
— sentem
corpos angustiados
imploram pelas chuvas

preces
(serão ouvidas?)
em uivos longos
vigilantes
— surgem os cães
homens, bichos, feras
empoeirados

coberta de outros pós
ao longe a cidade
— armadilha fatal
pingo de chuva
(lágrima do céu?)
transforma
a aridez em lama

renascem esperanças.

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27 de jan. de 2009

PÁTRIA

meus versos são
minha pátria
na linguagem
do meu chão
caminho e vivo

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25 de jan. de 2009

*84 CHARING CROSS ROAD


Cartaz do filme: *Nunca te ví, sempre te amei






Desejo os tecidos dos céus

Fossem meus os tecidos bordados dos céus,
Ornamentados com a luz dourada e prateada,
E os azuis e negros e pálidos tecidos
Da noite, da luz, da meia-luz,
Eu os espalharia debaixo dos teus pés:
Mas eu, pobre, tenho apenas os meus sonhos;
Eu espalhei os meus sonhos debaixo dos teus pés;
Pisa suavemente, pois é sobre os meus sonhos que pisas.

William Butler Yeats

24 de jan. de 2009

BANDO

Quem amordaça
O pássaro que canta
E aprisiona
O vôo?
O rubro tom
E o brilho dos rubis
Quem pode ofuscar?
Nossos vestígios
Passos, cantos
Pensamentos
Haverá quem apague?
Dispersará o bando
Que de fênix a alma
do fogo herdou
a chama e o ímpeto
do eterno renascer?

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22 de jan. de 2009

NEM


I Was So Happy To See You Again - Stiletto Heights

Fotos antigas
Sobre a mesa da sala
Sempre sorrindo
— E já não são

Eu
— Que ainda sou
E estou
Já não sorrio

Quem sabe

— Quando eu me for
Então sorria
Num porta retratos
Em cima da mesa

Sorriso amarelo
— De quem já não é
Nem sabe que sorri
Nem sabe

Nem

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21 de jan. de 2009

PIEDOSA FONTE

sedento
o homem
por sua conta e risco
adentrou no deserto
e se esqueceu da fonte

agora
clama por águas
e sombra
oásis
que já não há

irá desidratar
morrer à míngua
secar

— não!

responde a fonte
transbordando em dádivas
e perdão

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20 de jan. de 2009

A MINHA "BIBLIOTECA VERDE"

Recebi como herança de meu pai, que herdou de meu avô, algumas antiguidades de valor inestimável para mim: um exemplar belíssimo da Divina Comédia Humana de Dante Alighieri, de 1908; um jogo de chá de porcelana chinesa, riquíssima em detalhes, verdadeira obra de arte, que foi repartida entre os netos, cabendo a mim e minhas duas irmãs duas xícaras e um açucareiro (ainda não chegamos na fase de brigar pelo açucareiro...); dois cachepôs de prata, com flores em alto relevo, que desapareceu, e mais tarde foi descoberto, na casa da... Deixa pra lá...

O Jogo de xícaras de porcelana


Dante Alighieri

Tem mais: Uma máquina de escrever Corona, fabricada nos EUA em 1917, lindinha; uma cópia da máscara mortuária de Beethoven, que assombrou minha infância, pois o nonno insistia em nos mostrar “as marcas dos pelinhos do nariz do gênio”; uma câmera Voigtlander Bessa, de 1911, máquina Alemã criada pela conceituada Voigtlander, que usa filme 120, 6x9 e tem diafragma de 9 lâminas, sonho e muitos fotógrafos e colecionadores, extremamente leve e pequena quando comparada com outras 6x9 de fole; um livro do poeta Carducci, nascido também em Pietrasanta – Luca, região da Toscana, de onde vieram meus antepassados, e muitos, muitos livros e discos 78 rotações, de óperas e cançonetas italianas.

A máquina de escrever Corona



A Câmera Voigtlander Bessa

De todas estas preciosidades, a mais especial para mim com certeza foi uma coleção de 24 livros verdes, verdinhos com detalhes dourados: A Biblioteca Internacional de Obras Célebres. Aquela mesma para quem Drummond fez o poema BIBLIOTECA VERDE, considerado por muitos, um dos grandes poemas da literatura mundial. Dizem que alguns, dentre os maiores nomes da literatura brasileira e portuguesa tornaram se escritores sob influência desta coleção. Carlos Drumommd de Andrade ganhou uma de seu pai quando tinha entre 10 e 11 anos. Uma obra para ser lida aos poucos, pela vida afora, mas dá vontade de fazer como o menino Carlos, ver as figuras, passar a noite inteira lendo. Carecemos de tudo...

“O que saberei, o que não saberei
nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio
de flauta-percalina eternamente”





Foto: Blog do Chato - Idêntica a minha


Biblioteca Verde

Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.
São só 24 volumes encadernados
em percalina verde.
Meu filho, é livro demais para uma criança.
Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.
Quando crescer eu compro. Agora não.
Papai, me compra agora. É em percalina verde,
só 24 volumes. Compra, compra, compra.
Fica quieto, menino, eu vou comprar.
Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel.
Me mande urgente sua Biblioteca
bem acondicionada, não quero defeito.
Se vier com um arranhão recuso, já sabe:
quero devolução de meu dinheiro.
Está bem, Coronel, ordens são ordens.
Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro,
fino caixote de alumínio e pinho.
Termina o ramal, o burro de carga
vai levando tamanho universo.
Chega cheirando a papel novo, mata
de pinheiros toda verde. Sou
o mais rico menino destas redondezas.
(Orgulho, não; inveja de mim mesmo)
Ninguém mais aqui possui a coleção
das Obras Célebres. Tenho de ler tudo.
Antes de ler, que bom passa a mão
no som da percalina, esse cristal
de fluida transparência: verde, verde.
Amanhã começo a ler. Agora não.
Agora quero ver figuras. Todas.
Templo de Tebas. Osíris, Medusa,
Apolo nu, Vênus nua... Nossa
Senhora, tem disso nos livros?
Depressa, as letras. Careço ler tudo.
A mãe se queixa: Não dorme este menino.
O irmão reclama: Apaga a luz, cretino!
Espermacete cai na cama, queima
a perna, o sono. Olha que eu tomo e rasgo
essa Biblioteca antes que pegue fogo
na casa. Vai dormir menino, antes que eu perca
a paciência e te dê uma sova. Dorme,
filhinho meu, tão doido, tão fraquinho.
Mas leio, leio. Em filosofias
tropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias
me perco, medievo; em contos, poemas
me vejo viver. Como te devoro,
verde pastagem. Ou antes carruagem
de fugir de mim e me trazer de volta
à casa a qualquer hora num fechar
de páginas?
Tudo que sei é ela que me ensina.
O que saberei, o que não saberei
nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio
de flauta-percalina eternamente


Autor: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Pesquisando sobre a coleção que sempre encantou a mim e a outras gerações de minha família, encontrei no Jornal de Poesia, um texto de Wilson Martins, publicado originariamente na Gazeta doPovo de Curitiba, 26/06/1999: O Baú do Fernando" , onde ele conta onde ele conta alguns detalhes muito interessantes sobre a obra. Segundo informações colhidas por ele, existiriam apenas cinco exemplares completos no Brasil e apenas um em Portugal.

Encontrei também no Blog O Chato, de Afonso Escosteguy, uma matéria onde ele conta sua história de herdeiro de uma destas raridades. Então somos sete, agora, ou melhor, oito, pois um velho conhecido de nossa família também possui uma, talvez dentre todas as que existam, a que esteja em melhor estado de conservação. Infelizmente, como ele mesmo afirmou numa conversa há poucos dias, nunca foi aberta, nem por ele, nem por seu pai, muito menos por seus filhos. "Fica lá, enfeitando a estande..." Uma lástima, pois a minha, se encontra um tanto deteriorada, especialmente as capas, e algumas páginas internas, não apenas por ação do tempo, mas pelas incontáveis vezes que foi aberta, lida, relida e reverenciada.

Sem dúvida, uma beleza, não só na forma mas especialmente no conteúdo. O prefácio de Andrew Lang, “A Literatura no século XIX” é antológico. Encontra-se na folha de rosto, os seguintes dizeres: "Colecção das produções literárias mais célebres do mundo, na qual estão representados os autores mais afamados dos tempos antigos, medievaes e modernos". E os textos de Fernando Pessoa... Bem esta é outra história, que conto depois.

Como disse Escosteguy, “é de arrepiar”, saber que temos em nossas mãos um exemplar desta coleção histórica. Realmente uma sorte, um privilégio, uma emoção: A minha biblioteca verde, verdinha...



“Em filosofias
tropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias
me perco, medievo; em contos, poemas
me vejo viver”

PÁSSARO

já não sei mais
definir as cores
das minhas asas

— nem sei
se ainda tenho asas

também não posso
imaginar o tom
da minha voz

— nem sei
se ainda tenho voz

só sei que vôo
e canto
isto me basta
e pronto

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19 de jan. de 2009

BOREAL AURORA

Aurora
romana deusa
dos amanheceres
desperta

espera pelo filho
Bóreas
— devorador Titã
que virá

trazido
pelos ventos nortes
vindos da Hiperbórea
terra

voando pelos ares
se abraçam
— partículas de vento
em magnéticos campos

do impacto do abraço
o céu tingido brilha
e a Boreal Aurora
se faz

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